15/12/2005

NEU! - NEU! / NEU! 2 / NEU! 75

1972 / 1973 / 1975 (2005)

Gronland Records/Popstock!

Chamaram-lhe shoegaze porque as bandas tocavam imóveis enquanto fixavam os olhos no chão do palco. Esta é uma das pistas possíveis para redescobrir os NEU! mas não é talvez a mais correcta. Quando se reeditam os três álbuns com que fizeram história (na verdade, são dois mais um, mas já lá vamos), importa situar a formação germânica num conceito-chave: o “motorik”, um tipo de som industrial que soa às engrenagens que fizeram falta nalguma da cinematografia de Chaplin. Assim sendo, e indo um pouco mais à frente na árvore de conceitos, encontramos outro para designar os dissidentes kraftwerkianos: nem mais nem menos que “krautrock”. Mas relativamente a esse terão de repartir louros com uns Faust ou uns Can. O rigor de enquadramento oblige.

A cidade de Düsseldorf pariu-os em 1971, depois de Klaus Dinger e Michael Rother terem abortado nos Kraftwerk. No início do ano seguinte, os NEU! lançavam o disco homónimo de estreia. Gravado com Conrad Plank, produtor com os Can no cabeçalho do currículo, NEU! é a cábula a que se recorre quando o que importa é perceber as matizes do krautrock. Até porque, como veremos adiante, foi o único trabalho gravado em condições ditas “normais”, se descontarmos o facto de ter sido gravado em apenas quatro dias. Lapso de tempo manifestamente curto para apurar estruturas tão complexas quanto as que se declinam, por exemplo, em “Negativland”.

Imaginemos um fio de contas em que cada uma destas se desmultiplica em outras tantas e estas últimas teimam em constituir família. Daí até se decantar de cada tema uma nebulosa de espirais de guitarra, uma percussão maquínica, um baixo descomplexado mas parco nas notas, um sentido de comunidade, nem que seja entre roldanas e parafusos, locomotivas e trovões (um deles até cunhou a expressão “apache beat” para definir o som que faziam no interior da banda) é um pequeníssimo passo e um salto grande na direcção de abrir novos caminhos. Para pôr as coisas numa perspectiva histórica, diríamos, sem grandes achaques, que sem os NEU! nunca os My Bloody Valentine ou os Stereolab teriam existido, ou, a existirem, seriam certamente pouco mais do que interessantes.

Mas ao disco o que é do disco: um Dinger endiabrado a levar a bateria ao céu, a fazer descer sobre as nossas cabeças uma Via Láctea de peles esticadas ao invés de as fazer seguir pela Via Verde. A música é lenta mas tocada a um volume impossível, denso, nada circunstancial, aglomerador de empatias e ouvidos em sangue. É aqui que devem procurar as bases fundadoras desse estilo barroco de tocar alto e devagar. Já o baixo de Rother é da ordem de grandeza de uma rede de pesca para peixe graúdo, em cujos nós ficam suspensas linhas de guitarras que são protagonistas nos sonhos húmidos dos melómanos que nunca calçam o sapato errado. Mas não vejam na pintura pinceladas de virtuosismo desmesurado: só para terem uma ideia, “Hallogallo” é o mesmo acorde de guitarra em distintas variações. Por aqui até parece simples ser-se complexo.

E, no entretanto, enquanto o disco evolui – aqui sem metade da piada da edição original, porque nesta tinha que se mudar de lado –, aquilo que se afere é um estado liquefeito, quase de narratividade, apesar dos drones afoitos, do feedback a rodos e de fades capazes de deixar qualquer produtor mais académico com os nervos à flor da pele. O eco, empilhado em montanhas de outros efeitos, e um toque despudoradamente industrial estão para “Im Glück” como o carimbo de “essencial” está para o resto do disco. Mas isto foi só o princípio do fim.

Em 1973, era NEU! 2 que saía para alemão ver (note-se que, durante o período de carburação da máquina, os sons foram de difícil exportação para lá da Alemanha Ocidental). Com prazos muito difíceis de cumprir e um orçamento dificilmente deduzível em sede de IRS, este segundo tomo conta apenas duas canções acabadas: “Super” e “Neuschnee”. E é isto. Bom, isto mais umas sobras e diferentes velocidades para aqueles temas para encher um disco e fazê-lo seguir para as lojas.

Ou seja, tudo o que seria frontalmente dispensado por músicos sem vocação para o suicídio, todas as imperfeições, as minudências de estúdio – tipo o som da fita de cassete a sucumbir ao traquejo do gravador ou o tradicional ruído de disco riscado – fizeram uma aparição fulgurante num disco que também começou a dar mostras do aflorar de problemas internos. Vale sobretudo pelo “statement” absolutamente contra-sistema que representa, bem mais do que pelos retalhos de experimentação avulsa que seguiram para serem prensados.

Claro que os tais problemas no seio dos NEU! deram em bronca e a bronca deu em reunião, que por sua vez deu em disco – NEU! 75 de 1975 e nova separação. Depois, Rother começou uma carreira a solo, Dinger e Hans Lampe começaram os La Düsseldorf, nova reunião dos NEU! na década de 80 e compasso de espera até ser editado NEU! 4, em 1996. Mas a história que aqui se conta termina ali em cima, em 75. Arrumemo-lo pois em três ou quatro frases porque até é o menos interessante do material reeditado. Despachemos já a faixa alienígena: “Hero” é tão desajustada que mais parece hino punk à Johnny Rotten (e o pior é que acaba com o chilrear de pássaros). “Isi” é New Order para a estrada. O disco fica salvo por “E-Musik”, tema sombrio, sequenciadores no sítio certo, fogo de artifício rítmico, com uma verdadeira noção de perspectiva, espaço e vagas dentro do som. Noves fora, será sempre um prazer ouvir os NEU!, sentir-lhes os ossos e as articulações de novo e reaprender, a cada escuta, a gostar de música. Trinta anos depois. Antes mesmo de muitos de nós termos nascido ou aprendido a gostar da música que interessa.

http://www.bodyspace.net/album.php?album_id=557

13/12/2005

Sonic Youth - Goo [Deluxe Edition]

Geffen



Rating: 9/10

Two years after Sonic Youth’s Dirty got the deluxe treatment it deserved, Goo emerges from the vaults and is upgraded for a new generation of sonic prospectors. The addition of outtakes, B-sides and material never before released is indeed what makes this 2xCD set appealing to the diehard fans who bought the follow-up to Daydream Nation in its heyday.

Retrospectively, Goo, originally released in the summer of 1990, was extremely important for at least a couple of reasons: a) it hinted at the direction the New Yorkers were heading in, both musically and as a cohesive art ensemble, and b) it pulverized all scepticism that inevitably blossomed after they had signed with a major label. (Before moving on, let’s just thank everyone involved for keeping the original Raymond Pettibon artwork intact.)

In the liner notes for this expanded edition, music writer Byron Coley recalls: "A college student named Debbie told me… ‘When I was 12 years old someone gave me a copy of Goo. It’s the only thing that saved me from being a teenybopper." In a time when it was the rock star, and not the DJ, who could save your life, the guitar/bass and drum slugfest that occurs throughout the course of this album is tentatively provocative and rather inspiring, to say the least. Anyone expecting a softened detour in Sonic Youth’s path, after Daydream Nation broke its way to the masses, must certainly have felt really confused with tracks like "Mildred Pierce" and "Disappearer", the latter a song about UFOs. Some even dismissed it as mere artistic filler before pointing to an overall artistic failure circa Experimental Jet Set, Trash and No Star. But Thurston Moore, Kim Gordon, Lee Ranaldo and Steve Shelley are still here to prove them all wrong.

The real highlight of this record remains Kim Gordon’s collaboration with Public Enemy’s Chuck D on "Kool Thing". Her vocal mannerisms defy any sort of categorization when assisted by the always ferocious and poignant presence of the storied MC. But, for the purists, there’s also the clean, Chuck-less version of "Kool Thing" on Disc Two. Of course Goo would never be the same without "Mary-Christ", a song about dating Jesus’ mother, which gets all the exposure it deserves on both discs of the release; or "Tunic (Song For Karen)", a tribute to the lead singer for the Carpenters, who died of heart failure brought on by anorexia nervosa, in the early 80s – a song also featured on side two as an 8-track demo, along with other revisited luminaries like "My Friend Goo" and "Cinderella’s Big Score".

As it is normally the rule when these expanded records come out, the tracks featured on side two strip the original album to its barest essentials and all manner of studio-induced glimmer goes out the window. Those not connected to the Sonic Youth galaxy – and therefore a thousand light-years away from the genesis of everything interesting – will now have the chance to pull the plug twice on this album. All others - meaning those who understand that these songs aren’t supposed to be sung in the bath and who despise self-pitying arguments about a certain taste in music - will delve into the lethargic moan of Moore, and the incontinent emotion enclosed in Gordon’s voice.

As an addendum, those who understand will know how it feels like to be one of the first to put their hands on valuable material such as "That’s All I Know (Right Now)" and "I Know There’s an Answer" – amazingly-crafted covers of the Neon Boys and the Beach Boys songs, respectively – as well as the instrumentals "Can Song" and "Isaac", and the essential "Dr. Benway’s House", which was Sonic Youth’s contribution to William Burroughs’ Dead City Radio. Some will argue that this deluxe edition flattens Goo’s primal scream into a commercial item, full of extras, and overexposes its fundamental truth (the inclusion of a six-minute, promotion-only interview may also be regarded as a marketing appetizer per se). But I would say that the least we can do for Sonic Youth is to sacrifice our philosophical argumentation on the altar of their music, updated or otherwise.

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21/11/2005

Boards of Canada - The Campfire Headphase

2005

Warp

Os Boards of Canada ocupam um lugar quase mítico nas consciências de algumas pessoas cujas preocupações ultrapassam, em muitos quilómetros, o perímetro do seu bairro. Conhecemos a Escócia dos canais, dos kilts, do calão e do Loch Ness, mas também dos Mogwai e dos Belle & Sebastian – esqueçam os Franz Ferdinand! (Há por estas noites de Inverno um senhor que se senta num banco de jardim da Avenida da Liberdade e toca gaita de foles... Apetece perguntar se é escocês e se gosta do bife bem ou mal passado. Por detrás de cada rosto há uma história para contar e é sempre tentador interagir com a fauna humana que vive sob o manto cinzento da urbe.)

Não sabemos o que levou Michael Sandison e Marcus Eoin a juntarem-se e chamarem casa à costa norte da Escócia, uma franja de terra confinada entre o Mar do Norte e o Oceano Atlântico. Na verdade, não se sabe muito sobre os Boards of Canda (BoC) para além dos discos e das colaborações que vão mantendo no campo sideral das remisturas (confira-se, a propósito, o brilho sujo de “Dead Dogs Two”, original dos cLOUDDEAD, revisto por Michael e Marcus. That’s fucking beautiful, lad!). Há uma espécie de lei da rolha a vigorar, um black out que leva os admiradores e as línguas viperinas pelos caminhos da especulação lunática.

Passar sete anos sem editar mais do que três discos é também um bom reagente que ajuda na combustão de distorcidas visões da coisa. A proporção pode não ser comparável à taxa de reprodução de coelhos em idade adulta, mas se atentarmos no mercado extra-LP, temos uma boa meia-dúzia de estremosas edições – desde o inaugural Twoism a In a Beautiful Place out in the Country, o EP que esteve entre a edição de Music Has the Right to Children e Geogaddi (sem esquecer, claro, as inevitáveis Peel Sessions, de 1999).

Acontece que o duo escocês começou do nada absoluto, que é por onde começam, com honrosas excepções, as bandas que nunca poderão ser confundidas com uma sopa expresso. Era o ano de 1996 e os embrionários BoC gravavam canções a um ritmo masturbatório quando se associaram ao selo Skam, já na altura afamado pelo vínculo à electrónica e ao experimental. Seguiram-se edições menores mas os rabinhos já se voltavam para a Lua ao fazerem primeiras partes de Autechre e Plaid. Em 1998, Music Has the Right to Children veio encerrar a discussão sobre qual seria o álbum maior que conjugasse um hip-hop minimal com umas subtilezas downtempo, uns pozinhos de trip-hop e duas pitadas de dope. Tinha sido criado e estava ali. Não foi há muito tempo mas desde então tem havido cópias obtusas da fórmula testada. Mas falta-lhes a minúcia (oh, a minúcia!), o jeito para a produção, para o constante alijar de velas vergadas por um vento lunar.

O travo essencialmente ambient, com ocasionais beliscões menos hip que hop, de Music... e depois de Geogaddi faria talvez prever um disco de toca e foge, de revisão da matéria dada e salto no precipício que se abre quando se fala da música da contemporaneidade. Mas não, não é isso que ouvimos neste The Campfire Headphase. Aquilo se ouve é até um nadinha obsceno: ouvem-se, aqui e ali, guitarras desfraldadas, sem make-up tecnológico. Antes de gritarem “vendidos”, tentem encontrar um padrão no percurso dos BoC. Pois, é difícil. Agora tentem não manter a boca aberta enquanto ouvem “Chromakey Dreamcoat”, um registo próximo do chill-out tardio, já quando a manhã espreita, seguido de curtíssimos samples do que parece ser uma televisão, mais lá para o fim.

É a isto que deve soar a entrada no cérebro de Kevin Shields: uma base instrumental sublime e limpa e umas migalhas de voz manipulada para não se ficar a conhecer o emissor. E o rigor do sample, sempre oportuno, seja a chuva no início de “Satellite Anthem Icarus”, o choro de uma criança ou as programações de uma idade pré-cibernética em “’84 Pontiac Dream” e “Oscar See Through Red Eye”. ”Soft like there’s silk everywhere”. Isso. Ou música de elevador numa estação espacial, aumentada por um glitch soltinho como arroz malandro (especialmente em “Peacock Tail”). The Campfire Headphase é uma escultura de gelo ao detalhe com ligeira inflexão na procura da melodia. É que os BoC são tudo menos orelhudos e isso nem sequer interessa aqui.

Com óbvias diferenças (até, ou sobretudo, estilísticas), mas de certa forma nos BoC podemos ver os Kraftwerk da nova geração. Não deixem de mostrar este disco aos vossos filhos quando eles buscarem referências na cultura pop da altura ou no formato para que tiver evoluído o telelixo. Passados alguns anos, eles saberão como agradecer.

http://www.bodyspace.net/album.php?album_id=540

11/11/2005

Yip-Yip - Pro-Twelve Thinker

Strictly Amateur Films

Rating: 4/10

Although this record definitely doesn’t knock me off my feet, it may be worth a listen by all those noise lovers out there. Formed by Brian Esser and Jason Temple in Longwood (a suburb of Orlando), Yip-Yip may be regarded as the new acquisition in the world of a certain art form that finds its G-spot near a multitude of keyboards and synthesizers.

First self-released as a CD-R in 2003 and limited to 300 copies, Pro-Twelve Thinker is now re-issued on Strictly Amateur Films. I don’t know about you, dear reader, but I could go to sleep without all these disassembled gushes of notes, spilled as if “harmony” and “rhythm” were not words of their dictionary. I wouldn’t go as far as stating that this music is structure-less - because it does have one - but theirs is rather difficult to ascertain.

Probably poured into a hiss-swamped tape recorder, “100 MPH Checker Champ” is a pictorial map of noise, pulling hard at the very fabric of the song (wait; let’s call it a ‘piece’ or whatever, not song). A handful of tracks later and there comes the obnoxious “High Heel to Mammal”, which sounds like a serrated knife chopping your arm off, with all its blips chiming in agonizing pain. Undoubtedly, the problem with this album is that it barely gives itself oxygen, placing a turbine of resounding paraphernalia at the helm most of the time.

Constant reruns of Pro-Twelve Thinker induce terrible headaches and a sense of animosity toward the outside world; a regular human being needs some puffs of fresh air to breathe. I can only hope that one day this noise-related scene will become out of vogue, and out of the renewed ghetto will emerge a refilled set of bands, willing to please themselves as well all music enthusiasts. Until then, I shall put this out to temporary pasture, and that’s the best I can do.

But find out for yourself and your tolerances: you may find this as remarkable a statement as Marvin Gaye’s languid howl on “Sexual Healing”. That’s the beauty of music, and certainly that of noise and whatnot. That being said, the naïve, childish drawings inside its liner notes are inspired.

http://www.lostatsea.net/review.phtml?id=14328884994371dfa4e8dab

08/11/2005

Daedelus - Exquisite Corpse

2005



Mush

Tempo de levar a castanha ao braseiro que o Outono já vai alto. Por cá, está encontrado o disco bricolage do ano. De martelo impressionista em punho, Daedelus, natural de Santa Monica (EUA), parte pedra ao quarto álbum e faz-se acompanhar de uma equipa de emcees que puxam o lustro a um hip-hop que nasceu torto e não é certamente desta que se endireita. Exquisite Corpse é um esqueleto no armário que, apesar da aparência baça e fétida, conserva os olhos esbugalhados da carne que um dia lhe deu vida. Ou seja: é hip-hop de divã, em permanente tentativa de descoberta das linhas com que se cosem as entranhas.

A colaboração com MF Doom, o Homem da Máscara de Ferro, – o tema “Impending Doom” – parece um comercial ou uma sitcom fatela dos anos 20 ou 30 do audiovisual norte-americano e acaba a renegar a tradição mastigada do transformismo desenxabido em que o hip-hop se perdeu quando foi às putas do mercantilismo e se deixou ficar no bordel. Num trabalho em que só um terço das canções não tem convidado, a celebração acontece naturalmente num rés-do-chão esquerdo de um prédio dos subúrbios, quando as rádios especializadas só dão importância ao grime que vem de Londres.

“Just Briefly” não podia ser mais desconstrucionista no seu intento de andar às fisgadas aos pardalecos parolos e parvos (olhem a métrica, miúdos!) que andam a enganar os outros com deboches sensaborões. Nesse sentido, o número soa a DJ Shadow e coloca-se ao lado dos servidores da causa romântica do traquejo rap que anda para a frente, rap de rapina e não de rapsódia manhosa que mete gajas seminuas e álcool mais do que a conta.

“The Crippled Hand” parece assombração que só um copy/paste permissivo deixa nascer: carregadinha de swing (“lots, lots of swing”, para a comunidade jazz), esta faixa é o abraço da paz. Ou não tivesse já Mike Ladd, que assina um dos dois “Welcome Home” do disco, provado que isso era possível (e recomendável) no Negrophilia deste ano. As primeiras boas-vindas a casa são dadas por Scott Herren sob o cognome Prefuse 73 Danse Macabre, produção anti-lounge, nublada, difícil, bonita, que só funciona na região demarcada onde coabitam ele mais uma meia dúzia de iluminados, como Luke Vibert ou mesmo Boards of Canada.

Depois do reencontro com velhos amigos dos headphones, acontece o vislumbre do pânico. Enfim, no melhor pano cai a nódoa. Os TTC são franceses e fazem de “Cadavre Exquis” uma latinada que provoca indigestão. Só a piada de ouvir rappar na língua de Edith Piaf salva a coisa. A fechar, “Thanatopsis” entra em fulgurante contra-ciclo, baralhando a lógica dos temas anteriores e inscrevendo os que chegaram até aqui num tribalismo emancipado e emancipador.

Exquisite Corpse é uma Pompeia prestes a sucumbir à força dos vulcões da crítica mais conservadora. Pode até ser olhado como o pior pesadelo do escriba acometido pela preguiça mais castradora mas, para os admiradores, será sempre um soufflé de uma natureza rítmica diversa e desafiante. O mundo está a precisar de discos assim.

http://www.bodyspace.net/album.php?album_id=528