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30/12/2008

#1: Thievery Corporation - Radio Retaliation (discos 2008)




Thievery Corporation - Radio Retaliation

"tudo no disco é denunciado, tudo é dito com megafone em punho. Ou não fossem os primeiros segundos ocupados por uma sirene a anunciar 'Sound the Alarm', tema repartido com Sleepy Wonder, rapper dividido entre Nova Iorque e a Jamaica"

"em 'Mandala', ouve-se a cítara da indiana Anoushka Shankar, num dedilhado que faz mais por aproximar o Ocidente do Oriente do que qualquer tratado internacional"

"outra presença feminina pertence à cantora e violinista eslovaca Jana Andevska que nos deixa agarrados à sua 'Beautiful Drug', numa tripe assombrosa de jazz planante e rendilhado downtempo"

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29/12/2008

#2: Portishead - Third (discos 2008)




Portishead - Third


28/12/2008

#3: Jazzanova - Of All the Things (discos 2008)




Jazzanova - Of All the Things

"cantada por um melodioso Thief, 'Lie' é uma canção pop com um tapete de cordas e minúsculas programações a amparar as palavras"

'Little Bird' martela teclas com pantufas para acolher um José James que há muito anda a conjugar o jazz e a soul, numa voz que sai como um sopro mas arrasa como um tsunami

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27/12/2008

#4: B.B. King - One Kind Favor (discos 2008)




B.B. King - One Kind Favor

"o toque aveludado, negro como uma noite sem lua, não é senão um exercício de despojamento para recentrar atenções na forma mais tradicional de tocar blues"

"B.B. King nunca perde a elegância nem a subtileza vintage de soar clássico e moderno na mesma nota"

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26/12/2008

#5: Cat Power - Jukebox (discos 2008)




Cat Power - Jukebox

Há quem não perdoe a Chan Marshall uma certa resistência em escrever canções novas. Mantém-se essa tendência, já ensaiada em The Covers Record, de ir buscar temas dos outros. Jukebox é uma belíssima caixa de música, em que Cat Power torna seus originais de gente como Hank Williams, Lee Clayton e Joni Mitchell. É comovente o modo como ela canta James Brown em “Lost Someone” e Bob Dylan em “I Believe in You”. A este, ela escreve uma bonita carta de amor, “Song to Bobby”. Essa é a única canção nova a sair-lhe dos lábios e dos dedos, já que a outra que caberia nessa definição é uma versão de cabaret para a sua “Metal Heart”. A edição especial tem outro disco com mais cinco versões, incluindo “Naked, If I Want to” (e quem não gostaria que ela quisesse?) de Jerry Miller e “Breathless” de Nick Cave. E se Chan Marshall é bonita todos os dias, fica ainda mais bela quando canta em espanhol, como faz em “Angelitos Negros”. Convém ir ouvindo isto enquanto ela ainda está entre nós.

(texto publicado na lista dos melhores discos internacionais do Bodyspace)


25/12/2008

#6: Omara Portuondo - Gracias (discos 2008)




Omara Portuondo - Gracias

"é definitivamente um disco de Outono ou, quando muito, de fim de estação, de reunião à frente da lareira e de contos de ninar, como no comovente 'Cuento Para un Niño', composição crua e económica, feita somente de cordas e voz"

"ao cair do pano, 'Nuestro Gran Amor' assoma aos ouvidos como a peça mais delicadamente jazz do álbum, muito por causa do baixo cubano de Cachaíto López e das teclas igualmente cubanas de Chucho Valdés"

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23/12/2008

#8: Tricky - Knowle West Boy (discos 2008)




Tricky - Knowle West Boy

"já não estamos perante um "Maxinquaye", o primeiro disco de 1995, uma espécie de clássico instantâneo junto da crítica e do público, que saiu quando o trip-hop era ainda uma criança"

"ele continua capaz de escrever grandes canções que, num tom arrastado e insinuante, se revelam pequenos hinos ao amor: é assim com 'Past Mistake', um daqueles temas que fazem parar os ponteiros do relógio de tão belos e convidativos à contemplação"

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22/12/2008

#9: Erykah Badu - New Amerykah: Part One (4th World War) (discos 2008)




Erykah Badu - New Amerykah: Part One (4th World War)

Erykah Badu é muito provavelmente a mais interessante herdeira de vozes como Billie Holiday e Nina Simone. E nesta primeira parte da sua New Amerykah, Badu passeia o perfume soul dessa tradição e absorve o hip-hop das ruas de Brooklyn, onde tem um apartamento que, no início do ano, abriu ao jornal New York Times. Este disco é tão bom que a ideia de ver Erykah Badu arrumar as botas para a música, como se chegou a temer, arrepia. A sua Quarta Guerra Mundial é um ensaio cheio de estilo, com oradores como Madlib em “The Healer” (uma ensombrada fábula que mete curandeiros), Shafiq Husayn e Om’Mas Keith, ambos do trio Sa-Ra, em grande parte do disco e outros suspeitos do costume. Badu apura o seu pensamento social em “Soldier”, onde fala do Islão e do crime racial, e em “Twinkle”, um tratado sobre os buracos nos vários sistemas norte-americanos. E há ainda “Telephone”, uma bonita homenagem a J Dilla, escrita um dia depois da despedida ao malogrado produtor. É disco para ouvir até riscar.

(texto publicado na lista dos melhores discos internacionais do Bodyspace)


20/12/2008

18/12/2008

#13: Nas - Nas (discos 2008)




Nas - Nas

"Nas volta a fazer sentido fora dos limites de Nova Iorque, depois de anos a atravessar um deserto de ideias em que pregou essencialmente aos peixes"

"o discurso de mudança vem de um homem que, se os astros se alinharem, será o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos. É sobre isso que Nas canta em 'Black President', num relato mais desassombrado do que o resto do álbum"

actualização: Confirmou-se Barack Obama como o próximo Presidente dos EUA e, a partir de Janeiro, o mundo pode voltar a respirar. Respirar é preciso e é importante. Sinto um indizível prazer quando a América dá uma lição assim ao resto do mundo. Sou europeu e gosto muito disso. Mas a atitude da Europa em relação à América é, por vezes, de uma vergonhosa arrogância. Faz-me imensa comichão o anti-americanismo primário! Só comparável, na realidade, aos sentimentos mais primários dos americanos que, movidos a dólares, petróleo e uma cega deriva securitária, invadem um país e lançam bombas sobre cabeças inocentes. Nunca entendi como se pode malhar (e bem) no Bush e dar palmadinhas ideológicas nas costas de Che Guevara ou Pol Pot... Os três mostraram um olímpico desrespeito pela vida humana. Não sou propriamente cinturão negro em coerência mas faz-me confusão! E depois, vamos falar de fundamentalismos? Comecemos pois pelo quintal da nossa casa!

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17/12/2008

#14: Nneka - No Longer At Ease (discos 2008)




Nneka - No Longer At Ease

"esta supa sista tem consciência política, como se pode conferir em 'Streets Lack Love', 'Focus' ou mesmo no single 'Heartbeat'. Porque até uma canção de amor pode ser política"

"um disco de síntese de várias linguagens, da cadência abrasadora dos beats africanos (aqui e ali atravessados por teclas e pelo menos um ukelele) à fria matemática das técnicas modernas de estúdio, com programações ricas mas nunca gordurosas"

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16/12/2008

15/12/2008

14/12/2008

13/12/2008

12/12/2008

#19: Lil Wayne - Tha Carter III (discos 2008)




Lil Wayne - Tha Carter III

"Wayne é dono de um conhecimento transversal que lhe permite desaparecer num jogo de arqueologia para, algumas faixas depois, reaparecer sob a forma de 'Lollipop', num electro viciante mas que se mastiga e cospe como pastilha elástica"

"é refrescante ouvir um rapper assim, que se distancia do rótulo de gangster enquanto se aproxima de uma noção quase perfeita de ritmo"

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11/12/2008

#20: Nicola Conte - Rituals (discos 2008)




Nicola Conte - Rituals

RITUAIS DO COCKTAIL

O PRODUTOR ITALIANO REGRESSA COM “RITUALS”, QUE APROFUNDA AS LIGAÇÕES À BOSSA NOVA E AO LADO MAIS LUNAR DO JAZZ. É UM DISCO DE CONTINUIDADE NA CARREIRA DE CONTE PARA OUVIR NA ESPLANADA OU NO SOFÁ.

Há muito que os sons lounge, downbeat e trip-hop são associados a festas de cocktail em hotéis caríssimos ou a música de elevador vidrado. Essa aproximação, além de injusta, não faz qualquer sentido. É injusta porque muitos dos músicos envolvidos estão longe de se identificarem com esses espaços. E não faz qualquer sentido porque, em boa verdade, qual é o mal de fazer música que convida à preguiça regada por martinis?

Nicola Conte, DJ e produtor italiano, com um passado e um presente ligados ao acid jazz, é muitas vezes catalogado da forma descrita em cima. Depois de um “Other Directions”, editado pela Blue Note, disco em que ensaiou mudanças arriscadas, ele regressa agora com um trabalho luminoso, sensual e em ponto de caramelo. Estas 13 canções libertam um perfume de bossa nova, misturado com o cheiro característico dos bares fumarentos, onde se tocava jazz na Nova Orleães de outros tempos.

Como sempre acontece em Nicola Conte, a palavra é apurada para ter um toque aveludado e melhor se misturar com os vários instrumentos. E a palavra ganha uma força enorme nas vozes convidadas: Chiara Civello, José James, Kim Sanders, Alice Ricciardi e Philipp Weiss. Tudo vozes quentes sobre o piano, o baixo e o trompete, a bateria e o saxofone tocados pela banda que já acompanha o músico há algum tempo.

Apetece destacar o álbum todo porque só o álbum tocado do início ao fim faz justiça à música do senhor. Mas os temas que mais saltam ao ouvido são, logo a abrir, “Karma Flower”, com o registo meloso de Civello, depois “The Nubian Queens”, a primeira prestação de José James no disco e que deixa à mostra um fascínio pela bossa nova e pelo jazz de big band. Há ainda “Paper Clouds” e “Red Sun”, que, juntas, fazem a banda sonora perfeita para aventuras debaixo dos lençóis.

Isto é música para se ouvir à meia-luz, no final de uma noite passada em claro. Num longo set de DJ, estas seriam as escolhas para os derradeiros momentos, onde todos já funcionam em piloto automático. São temas longos, muitos a ultrapassar os cinco minutos e alguns mesmo os sete, para ouvir sem pressas, com tempo, para descobrir neles todos os detalhes da produção.

Ouve-se a sofisticação destes temas e logo surgem perguntas sobre o percurso do senhor. É que Nicola Conte foi DJ num colectivo chamado Fez, tornou as pistas de dança a sua segunda morada, enquanto absorvia os vários dialectos da música electrónica. No entanto, a sua formação em música clássica fê-lo interessar-se a fundo pelo jazz e pelas suas inúmeras possibilidades. De então para cá, “Bossa Per Due”, de 2001, continua a ser o disco mais imediatamente reconhecido do produtor.

Esse foi um trabalho que saiu na América pela etiqueta dos Thievery Corporation, o que terá ajudado a cimentar o reconhecimento público do músico. Ele que foi também o primeiro artista italiano a assinar pela Blue Note. Depois de um percurso assim, pode esperar-se sempre um disco de mudança ou de continuidade com pequenos acrescentos. “Rituals” é exemplo da segunda abordagem, é um trabalho desafiante, como os outros, e que lhes segue as pisadas.

As vozes são, na realidade, o factor que mais diferencia este disco dos restantes. Nicola Conte continua um brilhante executor na guitarra e, sobretudo, mantém o dom de se fazer acompanhar por bons músicos. Em ano de regresso dos Portishead e dos Thievery Corporation, que partilham algum deste amor pelo downbeat e o levam por caminhos diferentes, já só faltava voltar Nicola Conte com a sua música de domingo de manhã.

(publicado na edição de Dezembro da Dance Club)